Curatorial work









 

 
 
  
 


 
 


 
 
Vistas da exposição/ Exhibition views. Fotos/ Photos: Nina Szielasko 
 
Exposição
AUTÓMATO VIVO -
A vida, um artefacto natural?

Organização
Centro de História da Cultura da FCSH-Universidade Nova de Lisboa
MUHNAC- Museu Nacional de História Natural e da Ciência

Patrocínio
Fundação para a Ciência e Tecnologia

Curadores
Manuel Valente Alves e Adelino Cardoso

Concepção gráfica
Nina Szielasko

Obras de arte
José Esteves
Manuel Valente Alves
Marta de Menezes

Local
MUHNAC- Museu Nacional de História Natural e da Ciência, Lisboa

Data
22 de Novembro de 2014 a 27 de Fevereiro de 2015 

 


Comissão científica
Palmira Fontes da Costa
César Lopes
Manuel Silvério Marques
Liliana Póvoas

Consultores
Fernando Barriga
José Pedro de Sousa Dias
François Duchesneau
Viriato Soromenho-Marques

Apoio técnico
Joana Leite
Jorge Prudêncio
 

 


 
A vida surgiu às mais representativas escolas gregas como o modelo da ordem natural devido à regularidade dos processos biológicos e à espontaneidade e finalidade intrínseca dos actos vitais.
O naturalismo do renascimento, no século XVI, realçou esta tendência, em especial exaltando a perfeição, beleza e proporção do corpo humano, que é assumido como a expressão suprema do universo, do qual é arquétipo e símbolo. Isso está muito patente na obra inaugural da medicina moderna, De humani corporis fabrica (1543), de Andreas Vesálio, onde a natureza é concebida como produção do artista supremo (summus opifex), sendo a sua obra mais admirável o corpo humano, frequentemente designado como artifício (artificium), quer dizer, o produto de uma arte. Por exemplo, a “estrutura admirável do ouvido” é comparada com os instrumentos musicais, para evidenciar que as produções naturais são muito mais finamente trabalhadas do que aquelas que são produzidas pela arte humana.
Na transição do século XVII ao XVIII, a natureza reforça a sua função explicativa, mas a sua potência de agir torna-se objecto de controvérsia. Na sua versão hegemónica, o mecanicismo, a natureza é investida de um suplemento de ordem e regularidade: ela é um mecanismo perfeito, mas sem espontaneidade e dinamismo intrínseco. No entanto, a explicação mecanicista revela-se insuficiente, nomeadamente para explicar os fenómenos próprios da vida. Um organismo vivo pode ser inteiramente reduzido a um simples mecanismo? É um mecanismo especial? É uma estrutura original, distinta de todo e qualquer mecanismo? Foi principalmente no âmbito da medicina que o debate entre mecanicismo e vitalismo assumiu maiores proporções. De facto, considerada sob o ponto de vista médico, a natureza revela-se mais complexa, variável e contingente do que num plano estritamente mecânico.
A descoberta da célula, em 1838, e os progressos ulteriores das ciências biológicas, nomeadamente com o desenvolvimento da medicina experimental por Claude Bernard e a descoberta do mecanismo de selecção natural por Darwin, encontraram respostas para muitas questões altamente intrigantes, mas, ao fazê-lo, não deixaram de suscitar novas perplexidades. A descoberta da estrutura em hélice das moléculas do ADN em 1953 e o aparecimento da medicina molecular, da engenharia genética, da clonagem humana e da sequenciação do genoma humano, iniciada em 1990 e terminada em 2007, lançaram novos desafios que põem em causa o conceito de humano, ao ampliarem a capacidade de transformar o corpo e, no limite, modificarem “as componentes mais elementares e biofísicas da nossa identidade”,como refere Viriato Soromenho Marques.
O sonho e a utopia há muito que estão presentes no pensamento humano. A exposição evoca muito claramente essa dimensão através da escultura em mármore Ícaro (1987) de José Esteves. Mas o sonho e a utopia, sendo os propulsores da tecnologia, que permite ao ser humano transcender a sua natureza, a sua identidade física, também podem originar a tragédia, como se pode ver no exemplo de Ícaro.
E no próximo futuro, que ideia para o humano na era da bioengenharia? Respeitar as tradicionais fronteiras entre o natural e o artificial? ou fundir a cultura e a natureza, como sugere a instalação artística Retrato Proteico (2007) de Marta de Menezes? ou desnaturar o humano, como sugere o conceito de pós-humanidade? Para surpresa dos espíritos mais geométricos, quanto mais se descobrem os segredos da natureza, mais ela se revela complexa, fina, subtil e mesmo paradoxal, disponível para as mais variadas ligações, mesmo aparentemente anti-naturais. “Vou seguir a mera natureza com a razão” é uma fórmula de Francisco Sanches, médico e filósofo português do século XVI, que condensa todo o programa da racionalidade moderna, assente na relevância concedida à natureza como guia do pensamento e da acção. No entanto, o corpo que se move contra a corrente de um curso de água, representado nas fotografias artísticas da série Caminhar (2001) de Manuel Valente Alves parece querer contrariar a natureza, seguir um sentido anti-natural. A engenharia genética e a biologia sintética nas últimas décadas permitem criar novas formas identitárias para o ser humano que reforçam a acuidade dos problemas éticos em jogo.
A exposição "Autómato Vivo", que integra o projecto de investigação "O conceito de natureza no pensamento médico-filosófico na transição do século XVII ao XVIII" do Instituto de História da Cultura da Universidade Nova de Lisboa, tem como principal objectivo criar um espaço de reflexão contemporânea em torno de conceitos tão antigos como natureza, corpo, artifício, vida, cruzando objetos provenientes dos diferentes departamentos do Museu de História Natural e da Ciência da Universidade de Lisboa - peças de zoologia, mineralogia, botânica e instrumentos científicos - com objetos de arte, pertencentes a coleções particulares, realizados em diferentes suportes - biológicos, fotográficos e escultóricos - aos quais se juntam conceitos provenientes dos séculos XVII XVIII - autómato, natureza, arte, simples/composto, natureza e singularidades - que se questionam. 

Manuel Valente Alves
e Adelino Cardoso
Curadores da exposição


 


Exhibition
LIVING AUTOMATON -
Life, a natural artefact?
 
 
Organization
Centro de História da Cultura da FCSH-Universidade Nova de Lisboa
MUHNAC- Museu Nacional de História Natural e da Ciência
 
Support
Fundação para a Ciência e Tecnologia

Curators
Manuel Valente Alves and Adelino Cardoso

Graphic concept
Nina Szielasko

Art works
José Esteves
Manuel Valente Alves
Marta de Menezes

Place
MUHNAC- Museu Nacional de História Natural e da Ciência, Lisbon

Date
22 November 2014 to 27 February 2015
 

 
 
> Press release
> Invitation for the opening session

 
For the most representative Greek schools, life appeared as the model of the natural order due to the regularity of biological processes and the spontaneity and intrinsic purpose of vital acts.
The naturalism of the Renaissance in the sixteenth century, highlighted this tendency, particularly exalting perfection, beauty and proportion of the human body, which is assumed to be the ultimate expression of the universe, from which is the archetype and symbol. This is very evident in the inaugural work of modern medicine, De humani corporis fabrica (1543), Andreas Vesalius, where nature is conceived as a production of the supreme artist (summus Opifex), and the human body his most admirable work, often called as artefact (artificium), that is, the product of an art. For example, the "admirable structure of the ear" is compared with musical instruments, to show that the natural productions are much more finely crafted than those that are produced by human art.
In the transition from the seventeenth century to the eighteenth, the nature reinforces its explanatory function, but his power of acting becomes the subject of controversy. In its hegemonic version, mechanism, nature is invested with a supplement of order and regularity: it is a perfect mechanism, but without spontaneity and intrinsic dynamism. However, the mechanistic explanation is insufficient, and in particular to explain the phenomena of life. A living organism can be entirely reduced to a simple mechanism? It is a special mechanism? It is a unique structure, distinct from any mechanism? It was mainly in the area of medicine that the debate between mechanism and vitalism assumed greater proportions. Indeed, considered from the medical point of view, nature is revealed more complex, variable and contingent than a strictly mechanical plan.
The discovery of the cell, in 1838, and further progress in the biological sciences, in particular with the development of experimental medicine by Claude Bernard and the discovery of the mechanism of natural selection by Darwin, found answers to many highly intriguing questions, but, in doing it they create new perplexities. The discovery of the structure in helix of DNA molecules in 1953 and the emergence of molecular medicine, genetic engineering, human cloning and sequencing of the human genome, which started in 1990 and completed in 2007, expand the capacity to transform the body and, ultimately, to modify the "most elementary and biophysical components of our identity", as stated Viriato Soromenho Marques in the exhibition catalogue, launched new challenges that put in question the concept of human.
The dream and utopia have long been present in human thought since many time. The exhibition evokes clearly this dimension throughout the sculpture in marble Icarus (1987) by José Esteves. But the dream and utopia beeing the propulsor of the technology which permits the human being to transcend his physical reality, his nature, also can provoke the tragedy, as we can see in the Icarus' myth. 
But what is going to happen in the future, what idea for the human in the bioengineer era? To respect traditional boundaries between natural and artificial? or dilute of culture into the nature, as suggested by the art installation Portrait Protein (2007) by Marta de Menezes? or denature the human, as purposed by the concept of post-humanity?
To the surprise of the geometric spirits, the more you discover the secrets of nature, the more it reveals complex, fine, subtle and even paradoxical, available for a variety of connections, even seemingly unnatural.
"I will follow the mere nature with reason", an expression of Francisco Sanches,  portuguese doctor and philosopher of the sixteenth century, is a formula that condenses all of modern rationality program, based on the relevance given to nature as a guide thought and action. However, the body moving against the current of a river, represented in the art photographs of the series Walking (2001) by Manuel Valente Alves, seems to antagonize the nature, following an anti-natural sense. Genetic engineering and synthetic biology in recent decades allow you to create new identity forms for humans that reinforce the accuracy of the ethical issues at stake.
The exhibition "Living Automaton", which is part of the research project "The concept of nature in the medico-philosophical thinking in the transition from the seventeenth to the nineteenth century" of the History of Culture Institute of the New University of Lisbon, has as a principal aim to create a space of contemporary reflection on the concepts of nature, body, life, artifice, using objects from different departments of the National Museum of Natural Histort and Science of the University of Lisbon - zoology, mineralogy, scientific instruments - which are crossed with art objects from private collections in different supports - bioarte, photography and sculpture - and concepts of the seventeenth/eigtheenth century - automaton, nature, art, simple/composite, nature and singularities - that are questioned.

Manuel Valente Alves
and Adelino Cardoso
Exhibition curators