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Geração Médica de 1911

 
 Helena Almeida  
 
 Cristina Mateus


Sílvio Rebello - Cristina Mateus

Cristina Mateus



 
Henrique de Vilhena 

José Barrías
 
 Augusto Celestino da Costa [first plan]

Helena Almeida
 
 
Francisco Gentil - Miguel Palma

Miguel Palma
 
 Marck Athias - Noé Sendas

Noé Sendas  

 
Azevedo Neves - José Pedro Croft

José Pedro Croft  
 
 
Aníbal Bettencourt
 Aníbal Bettencourt - Ângela Ferreira


Vistas da exposição. Fotos: Laura Castro Caldas e Paulo Cintra
 


 
Exposição
SETE ARTISTAS CONTEMPORÂNEOS EVOCAM A GERAÇÃO MÉDICA DE 1911


Local
Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa
 
Data
27 de Janeiro a 11 de Abril de 1999

Curadoria
Manuel Valente Alves

Design da exposição
Manuel Valente Alves
Cristina Sena da Fonseca

Artistas contemporâneos
Ângela Ferreira
Cristina Mateus
Helena Almeida
José Barrías
José Pedro Croft
Miguel Palma
Noé Sendas

Médicos evocados
Aníbal Bettencourt
Azevedo Neves
Augusto Celestino da Costa
Francisco Gentil
Henrique de Vilhena
Marck Athias
Sílvio Rebello

Suportes gráficos
Victor Diniz

Secretariado
Maria José Paletti

Montagem
Equipa de montagem do CAMJAP

Luminotecnia
Serviços Centrais da FCG
 
 

Planta da exposição - Piso 01 do edifício-sede da Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa
 

"O lugar da vida não é o lugar da história. Num passa-se o mistério. Noutro corrige-se a realidade" Agustina Bessa Luís

Para esta exposição, sete artistas contemporâneos foram convidados a criar sete instalações originais destinadas a evocar sete dos médicos mais representativos da "Geração Médica de 1911", a geração responsável pela reforma do ensino médico em Lisboa no início do século no contexto da revolução republicana. A exposição e o livro que a acompanha pretendem, pois, evocar a vida e a obra destas personalidades, que fundaram da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, através do diálogo que com elas estabeleceram os artistas convidados, recriando a sua poética fundacional à luz da sensibilidade e do pensamento actuais. Trata-se de estabelecer um diálogo produtivo entre o Homem e a História, e entre esta e o mundo através da arte.

Na primeira instalação, Helena Almeida evoca Celestino da Costa, o mais novo do grupo e um dos que alcançaram maior projecção internacional. Augusto Celestino da Costa distinguiu-se pelo seu notável trabalho de investigação na área da histofisiologia das glândulas endócrinas, sendo considerado o maior embriologista da península. "Dentro de Mim", o título de uma recente série de fotografias em que Helena Almeida resolveu inscrever este trabalho, reforça o carácter íntimo da experiência evocativa, que a crítica de arte Isabel Carlos Isabel apresenta como um "vaivém entre dar a ver e esconder, que é igualmente o movimento que vai da experiência individual ao carácter universal que toda a obra de arte deve perseguir."

Na seguinte, José Pedro Croft evoca Azevedo Neves, fundador do laboratório de Análises Clínicas dos Hospitais de Lisboa, responsável pela criação da primeira Comissão da Luta Contra o Cancro, irá enveredar pelo estudo da Medicina Legal. João Lobo Antunes, no texto da apresentação, refere-se à singularidade do trabalho que o artista criou: "[...] tão simples em sua aparência, construída numa lógica arquitectural, definindo espaços virtuais em combinação sábia de dois elementos sem nada de comum é, no fundo, mais um exemplo de uma singular hibridização inorgânica tão aparente noutras obras suas, retomando a tradição da pintura paleolítica e dos hieróglifos egípcios que, como alguém disse, ligavam o sujeito a uma miríade de predicados."

Noé Sendas centra-se em Marck Athias, fundador da investigação médica e biológica em Portugal, que, através de observação microscópica, desenvolveu a histologia e fisiologia. Estudou em Paris, trabalhou no laboratório de Mathias Duval, e acabou por ser um dos founding fathers da medicina portuguesa. A instalação de vídeo evocativo é centrado precisamente sobre a audição e fala. Além disso, na simulação de um monólogo do artista, por António Cabrita, há uma frase que esclarece o significado desta instalação: "[...] a especificidade de um trabalho científico é também um diálogo com outras especialidades e um pouco de paciência e humildade . Assim, tornou-se evidente que em muitas ocasiões Dr. Athias era "a sua boca e ouvidos."

Ângela Ferreira trabalha sobre Aníbal Bettencourt, outro dos fundadores da moderna medicina portuguesa. Ele é o mais velho e o mais antigo dos professores das disciplinas básicas. Dirigiu o Instituto Câmara Pestana, onde desenvolveu extraordinária actividade científica no campo da medicina experimental e da investigação bacteriológica. Também se dedicou à fotografia. O crítico de arte João Fernandes sublinha, no texto da apresentação, o rigor conceptual da abordagem da artista ao trabalho do cientista: "No projecto que Ângela Ferreira agora apresenta, a partir da referência da vida e obra do médico português Aníbal Bettencourt, um dos principais pioneiros na investigação de bilharziose, [...] cujos parasitas são transmissíveis através da água e da roupa, a associação entre os vários planos semânticos da conceptualização e percepção da pesquisa do artista surge claramente evidenciada."

Cristina Mateus evoca Sílvio Rebello, fundador do Instituto de Farmacologia e Terapêutica Geral. Embora sendo Pioneiro da Farmacologia experimental em Portugal, ele nunca deixou de exercer prática clínica. Dedicou-se também à poesia. Esta última faceta foi a que mais seduziu a artista Cristina Mateus que, a partir de um poema do do médico, constrói "um ambiente perceptivo baseado na descontextualização de determinados dispositivos linguísticos e da consequente implosão de uma narrativa linear no registo visual. Assim, aquilo que no poema original estaria enquadrado por uma estrutura narrativa mais ou menos transparente, torna-se na actual instalação fragmentário e e intrinsecamente abstracto", nas palavras do crítico Miguel Von Hafe Pérez.

José Barrias evoca Henrique de Vilhena, distinto anatomista, que também desempenhou funções de professor de anatomia artística na Escola de Belas Artes de Lisboa. Barrías evoca o cientista alargando simbolicamente o conceito de espaço e de tempo, como se pode ler no texto do Mario Bertoni: "É uma viagem, portanto, a instalação que Barrias propõe, [...] um trajecto não percorrível fisicamente, mas praticável com os olhos, um espaço-tempo afunilado que é trajectória de ver, [...] um estreitamento que pretende significar quanto as potencialidades, à medida que se vai avançando, se concentram, se condensam e se tornam cada vez mais espessas: de resto na física os buracos negros também representam o máximo de concentração e de energia. Em contrapartida, o espaço-tempo amplia-se no sentido do ponto de observação do espectador porque, desembocando e dissolvendo-se na vida, a arte aumenta o seu potencial de ambiguidade e de valências significantes."

Finalmente, o artista Miguel Palma evoca Francisco Gentil, importante cirurgião que se distinguiu, entre muitos outros aspectos, na luta contra o cancro em Portugal. Óscar Faria descreve e comenta o trabalho do artista nos seguintes termos: "Um telescópio está apontado a uma lamela de grandes dimensões, onde se pode observar algo formalmente semelhante a um grupo de astros. O convite a explorar o universo transforma-se na observação de uma célula cancerígena. A metáfora é poderosa: desconhecemos tanto o interior do nosso corpo como as galáxias mais distantes. Há mesmo nesta contemplação qualquer coisa de doloroso. E também de maravilhoso."

Manuel Valente Alves, comissário da exposição

 

Exhibition
SEVEN CONTEMPORARY ARTISTS EVOKE THE MEDICAL GENERATION OF 1911

Place
Calouste Gulbenkian Foundation, Lisbon
 
Date
January 27 to April 11, 1999

Curator
Manuel Valente Alves

Design of the exhibition
Manuel Valente Alves
Cristina Sena da Fonseca

Contemporary artists
Ângela Ferreira
Cristina Mateus
Helena Almeida
José Barrías
José Pedro Croft
Miguel Palma
Noé Sendas

Médicos evocados
Aníbal Bettencourt
Azevedo Neves
Augusto Celestino da Costa
Francisco Gentil
Henrique de Vilhena
Marck Athias
Sílvio Rebello
 


Plan of the exhibition - Floor 01 do main building of the Calouste Gulbenkian Foundation, Lisbon
 

"The place of life is not the place of history. In one, mystery passes. In the other, reality is corrected." Agustina Bessa Luís

For this exhibition seven contemporary artists were invited to create seven original works of art to evoke seven doctors representative of the "1911 Generation", the generation responsible for the reformation of medical teaching in Lisbon, in the context of Republican revolution. The objectif of the exhibition and accompanying book is to evoke the life and work of the founders of the Faculty of Medicine, University of Lisbon, through dialogue established by the artists, recreating its foundational poetic under the actual sensibility and thinking. It is to establish a productive dialogue between man and history, and between it and the world through art.

In the first installation, Helena Almeida evokes Celestino da Costa, the youngest of the group and the one that reached great prominence in science, distinguishing himself as the greatest embryologist of the peninsula and with notable work in the area of histophysiology of the endocrine glands. "Dentro de Mim" (“Inside of Myself”), the title of a recent series in which the artist resolved to inscribe this work, reinforces the intimate character of the evocative experience, that Isabel Carlos presents as a "coming and going between putting into view and hiding, that is equally a movement that goes from individual experience to the universal character that all the work of art must pursue." 

In the next installation, José Pedro Croft evokes Azevedo Neves, founder of the Clinical Analysis laboratory of Hospitals of Lisbon (laboratório de Análises Clínicas dos Hospitais de Lisboa), who created the First Committee of the Fight against Cancer (Primeira Comissão da Luta Contra o Cancro), ending up a leader in Legal Medicine. João Lobo Antunes, in the text of the presentation of this work, refers to the singularity of the work that the artist created: "[…] so simple in its appearance, constructed with an architectural logic, defining virtual spaces in a scholarly combination of two elements with nothing in common and, in essence, one more example of a singular inorganic hybridization so apparent in other works of his, taking back the tradition of paleolithic painting and Egyptian hieroglyphics, that, as someone said, connected the subject to a myriad of predicates."

Noé Sendas centers his work on Marck Athias, foundership of medical and biological experimental research in Portugal, who, through microscopic observation, developed histology and phisiology. He studied in Paris, worked in Mathias Duval's laboratory, and ended up being one of the founding fathers of the new Portuguese medicine. The evocative video installation is centered precisely on hearing and speaking. Also, in the simulation of a monologue of the artist, by António Cabrita, there is a phrase that clarifies the meaning of this installation: "[…] the specificity of a scientific work is also a dialogue with other specialities and some patience and humility. So it became evident that on many occasions Dr. Athias was 'his mouth and ears'."

Ângela Ferreira works on Anibal Bettencourt, another of the founding fathers of modern Portuguese medicine. He is the oldest of the professors of the basic disciplines and has been around the longest. He directed the Câmara Pestana Institute (Instituto Câmara Pestana), where he developed extraordinary scientific activities in the field of experimental medicine and in bacteriology. He was also dedicated to photography. João Fernandes, in the text of the presentation, underlines the conceptual rigor of the artist’s approach to the scientist's work: "In the project that Ângela Ferreira presents now, starting from the reference of the life and work of the Portuguese doctor Anibal Bettencourt, one of the main pioneers in the research on bilharziosis, […] whose parasites are transmissible through water and clothing, the association between the various semantic planes of conceptualization and perception of the artist's research emerges clearly evident."

Cristina Mateus evokes Sílvio Rebello, founder of the Institute of Pharmacology and General Therapy (Instituto de Farmacologia e Terapêutica Geral). Pioneer, inter nos, of Experimental Pharmacology, however, he never stopped clinical practice. He was also dedicated to poetry. However, it is this last facet that which seduced the artist the most, that, from a poem of the doctor's, constructs "a perceptive environment based on the decontextualization of certain linguistic devices and the consequent implosion of a linear narrative in the visual register. So, that which in the original poem would be framed by a more or less transparent narrative structure, becomes in the actual installation fragmentary and intrinsically abstract", in the words of Miguel Von Hafe Pérez’s presentation.

José Barrías evokes Henrique de Vilhena, distinguished anatomist, who also performed functions of professor of artistic anatomy in the School of Fine Arts (Escola de Belas Artes). He evokes him slackening symbolically the concept of space and of time, as one can read in Mario Bertoni’s text: "It is a journey, therefore, the installation that Barrias proposes, (…) a trajectory not physically possible, but possible with the eyes, a funneled space-time that is trajectory to seeing, […] a narrowing that means to signify how much the potentials, as it advances, concentrate, condense and become thicker and thicker: besides, in physics black holes represent the highest concentration of material and energy. In counterpart, space-time is amplified in the sense of the spectator’s point of observation because, discharging and dissolving itself in life, art augments its potential of ambiguity and significant valencies."

Finally, Miguel Palma evokes Francisco Gentil, a notable surgeon, who distinguished himself in the fight against cancer in Portugal. The art critic Óscar Faria describes and comments on this work of the artist in the following terms: "A telescope is pointing to a lamella of great dimensions, where one can observe something formally similar to a group of stars. The invitation to explore the universe transforms itself into the observation of a cancerous cell. The metaphor is powerful: we do not know the inside of our bodies as well as the most distant galaxies. There is even in this contemplation something painful. And also marvelous."

Manuel Valente Alves, exhibition curator